terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Morre uns dos maiores diretores da história - Michael Winner

Michael Winner (1935 – 2013)


Morreu o diretor inglês Michael Winner, conhecido por iniciar a popular franquia de filmes de vingança “Desejo de Matar” (1974), estrelada por Charles Bronson. Ele morreu nesta segunda (21/1) aos 77 anos, em sua casa em Londres, depois de batalhar por anos com uma doença do fígado.
Ele escreveu seu nome em Hollywood com a franquia “Desejo de Matar”, que lançou nos anos 1970 e comandou até a segunda continuação. O filme teve uma ótima resposta do público, mas rendeu muita polêmica em relação ao retrato dos justiceiros e à alta dose de violência, questões que ainda são discutidas no cinema até hoje. A opinião de Winner sobre seus filmes B refletia bem sua personalidade ácida e direta: “Se você quer arte, não mexa com filmes. Compre um Picasso.”
Em sua aurora no cinema britânico dos anos 1960, ele demonstraria talento para o humor na crítica social, mas foi seu deslumbramento pelo desencanto de Nova York nos anos 1970, como uma metrópole falida, tomada por pixações e criminosos em cada esquina, que tornou seu cinema icônico e popular.
Michael Robert Winner nasceu em Londres no dia 21 de janeiro de 1935, filho único de Helen e George Robert Winner. Seu pai, descendente de russos, era investidor imobiliário, e ganhava o bastante para financiar o vício de jogo da esposa, de família polonesa, que jogava com tanta frequência que mal dava atenção para Michael. Durante o Bar Mitzvá (cerimônia de passagem à idade adulta) do garoto, ele foi encarregado de guardar os casacos de peles de convidados que chegavam para a festa de pôquer que Helen havia marcado naquele dia.
Apesar da turbulência, foi nessa época que ele ganhou a reputação de ser “louco por cinema”, após afixar resenhas de filmes escritas à mão no quadro de notícias da escola. Durante a adolescência, ele mandava seus textos para jornais como o Sunday Express e o Evening Standard. Aos 13 anos, Winner convenceu o jornal The Kensington Post a publicar uma coluna semanal sobre cinema de sua autoria, centrada em sua amizade com um garoto ator.

Após fingir que era homossexual para não ser chamado para o serviço militar,
Winner iniciou o curso de Lei e Economia na Faculdade Downing, em Cambridge, no ano de 1953. Durante a graduação, o estudante editou o jornal da instituição, e três anos depois, ele saiu com um “diploma vagabundo”, em suas próprias palavras. Foi então que ele fez vários cursos para direção de TV e teve uma breve passagem como roteirista de produções para a TV e para o cinema.
Depois de um documentário de viagem chamado “This Is Belgium” (1957) e de alguns curtas e médias-metragens, que ele aprendeu a editar sozinho, Winner se lançou como diretor de longas com o musical “Play It Cool” (1962), produzido como um veículo de divulgação do cantor pop Billy Fury. Para financiar seu filme seguinte, “Some Like It Cool” (1962), Winner pediu 1,500 libras para seu pai. O investimento deu dividendos, graças ao tema escolhido: os cinemas não tinham comédias ambientadas em praias de nudismo.
Ainda no começo dos anos 1960, Winner dirigiu o drama criminal “Apartamento de Solteiro” (West 11, 1963), centrado em vagabundos da Londres urbana, e “O Sistema” (The System, 1964), sobre um conquistador que se apaixona por um dos seus alvos femininos. “O Sistema” foi o primeiro de quatro filmes do diretor com o ator Oliver Reed nos anos 1960. Em tom de brincadeira, o ator creditou o sucesso da parceria ao fato de “ele gritar mais alto que eu.”
Em “You Must Be Joking!” (1965), o cineasta mostrou mais uma vez sua vocação para a malandragem: durante as filmagens, ele explodiu um carro na hora do rush em um cruzamento movimentado de Londres, e, quando foi abordado pela polícia, disse que não sabia quem havia dado a ordem.
Outra parte importante dessa fase de Winner foram as comédias com temas sociais, como “O Golpe do Século” (The Jokers, 1967), indicado ao Globo de Ouro na agora extinta categoria de Melhor Filme Estrangeiro Falado em Inglês, e “Depois que Tudo Terminou” (I’ll Never Forget What’s'isname, 1967), ambos com Oliver Reed.
O último filme também incluía em seu elenco a cantora Marianne Faithfull e um dos maiores nomes do cinema, Orson Welles, protagonista e diretor de “Cidadão Kane” (1941). Relembrando o trabalho com a lenda viva que era Welles, em uma entrevista ao jornal Guardian, o diretor não se mostrou solene: “Welles um dia me disse, ‘Michael, você está me filmando por baixo. Assim eu vou parecer gordo.’ Orson iria parecer gordo mesmo se você o filmasse de cima de um helicóptero”, brincou.



Com a indicação ao Globo de Ouro e o sucesso comercial da sátira de guerra “Os Destemidos não Caem” (Hannibal Brooks, 1969), novamente com Oliver Reed, Winner começou a conquistar renome nos EUA. Isto lhe rendeu um convite para comandar o suspense clássico “Operação França” (1971), que ele rejeitou para permanecer no Reino Unido e filmar uma obra que se tornou cultuadíssima, “Os que Chegam com a Noite” (The Nightcomers, 1971), dirigindo ninguém menos que o astro Marlon Brando. A trama era uma espécie de prólogo do clássico conto sinistro “A Volta do Parafuso”, de Henry James, sobre a corrupção de crianças diabólicas. Trata-se do filme que ele afirma ter mais orgulho de ter feito.
No mesmo ano em que mostrou sua capacidade para o suspense com o fenomenal “Os que Chegam com a Noite”, Winner finalmente fez sua estreia hollywoodiana. E com o gênero mais americano de todos, no western “Mato em Nome da Lei” (Lawman, 1971), estrelado por Burt Lancaster.
Ele retornou ao Velho Oeste em “Renegado Vingador” (Chato’s Land, 1972), que já apontava uma guinada em seu estilo. Tratava-se de um filme de vingança com uma reversão de papéis. Desta vez, o herói era um índio, que de caça se torna perseguidor, eliminando um a um o grupo de homens brancos em seu encalço. O papel principal coube a um astro veterano que ainda não tinha atingido seu maior sucesso em Hollywood, chamado Charles Bronson. Foi o começo da parceria mais bem-sucedida da vida de ambos.
Winner bisou a colaboração com Bronson no mesmo ano, criando um filme violento que se tornou cultuado e recentemente ganhou um remake, “Assassino a Preço Fixo” (The Mechanic, 1972), sobre um matador que passa a ensinar sua profissão para o filho de uma vítima. A mesma estética brutal foi explorada com o thriller “Scorpio” (1973), em que dois assassinos, vividos por Burt Lancaster e o galã francês Alain Delon, tentam se matar.
Mas o auge da estética violenta, que marcou a fase americana do diretor, ainda estava por vir. Em 1974, ele fez o conhecido e famigerado “Desejo de Matar”. O drama voltou a juntar o diretor com Bronson, que interpreta o arquiteto Paul Kersey, um homem que passa pela tragédia de ter sua esposa assassinada por criminosos de rua e sua filha estuprada dentro de seu apartamento. Dali em diante, ele se torna um justiceiro noturno, obcecado em matar potenciais assaltantes.
O filme foi marcado pela controvérsia, e é considerado por alguns uma exploração exageradamente violenta da paranoia urbana americana e uma apologia às armas e as pessoas que tomam a justiça em suas próprias mãos. Embora tenha dito que não apoiava grupos de justiceiros, Winner fez doações a um deles, chamado Guardian Angels (“Anjos da Guarda”). Em defesa ao filme, o cineasta frequentemente apresentava estatísticas de que a diminuição da violência nas telas às vezes resultava em aumento na criminalidade, e citava o Japão, que tem uma literatura muito violenta, mas paradoxalmente uma taxa criminal muito baixa.
O público do cinema foi unânime em sua resposta positiva a “Desejo de Matar”. Com orçamento de apenas U$S 3 milhões, o lançamento rendeu U$S 22 milhões nas bilheterias americanas, iniciando uma franquia que se estendeu por cinco filmes. O próprio Winner dirigiu as duas sequências iniciais, “Desejo de Matar 2″ (1982) e “Desejo de Matar 3″ (1985), mas, apesar do afastamento do diretor, Bronson continuou até “Desejo de Matar V” (1994).
Outro título notável na carreira do cineasta na década de 1970 foi “A Sentinela dos Malditos” (The Sentinel, 1977), terror estrelado pela diva Ava Gardner. Muito elogiado pelos fãs do gênero, o filme também caprichava na violência gráfica e, para variar, não foi bem recebido pela crítica especializada, especialmente pelo uso de anões e pessoas com deformidades reais para causar choque no público.
Alguns dizem que ele tentou fazer as pazes com os críticos com “A Arte de Matar” (The Big Sleep, 1978), refilmagem em “À Beira do Abismo” (1946), e “A Perversa” (1983), versão de “The Wicked Lady” (1945). Nos anos 1970, ele também comandou um thriller sobre crime organizado, “Firepower” (1979), com a beldade Sophia Loren.
De todo modo, depois de “Desejo de Matar 3″, a produção de Winner foi diminuindo, e nos 10 anos finais de sua carreira, ele dirigiu apenas mais cinco filmes, incluindo o musical “Um Viúvo em Ponto de Bala” (A Chorus of Disapproval, 1989), com Jeremy Irons e Anthony Hopkins, e a comédia “Ladrão de Ladrão” (Bullseye!, 1990), estrelada por Michael Caine e Roger Moore. Curiosamente, seus últimos lançamentos foram sobre justiceiros: “Dirty Weekend” (1993) trazia uma vigilante mulher, enquanto “Parting Shots” (1998) enveredava pelo lado cômico do gênero.
O diretor, no entanto, achava que esse declínio fazia parte natural da vida. “Há poucos diretores de cinema com 74 anos de idade por aí”, disse Winner em 2009. “Você não pode ter a expectativa de fazer grandes filmes de Hollywood por toda a sua vida. Os holofotes se movem. Eu fui um diretor muito bem empregado de 1960 até 1990, e então aquilo começou a ruir.”
Foi nos anos 1990 que o interesse de Michael Winner por gastronomia começou a florescer e tomar parte em sua vida. Ele se tornou crítico gastronômico para o jornal Sunday Times, e, graças a sua língua afiada e seus comentários ácidos, foi proibido de entrar em vários restaurantes, após dar-lhes cotações negativas. Mas quando seu jantar se provava particularmente bom, ele o chamava de “histórico”.
Seu gosto refinado para comida não se traduzia nas vestes, pois Winner normalmente usava paletós baratos e sapatos gastos. Para compensar o visual desleixado, ele curtia seus luxos preferidos: dirigia sempre um Rolls Royce e raramente aparecia sem um enorme charuto Montecristo.


Dando uma amostra de seu desgosto pela violência, Winner fundou a organização de caridade Police Memorial Trust, que cria monumentos para policiais mortos em combate. O cineasta teve a iniciativa depois da morte da policial Yvonne Fletcher em uma manifestação, em 1984.
Michael Winner disse ter medo de casamentos, em parte por causa das coisas que ele presenciou na casa de seus pais, mas ele teve muitos relacionamentos com beldades, como a atriz Jenny Seagrove, que ele dirigiu em filmes como “Um Viúvo em Ponto de Bala” e “Ladrão de Ladrão”. O mais longo relacionamento de Winner foi com a dançarina de balé Geraldine Lynton-Edwards. Eles se conheceram ainda jovens, em 1957, quando ela tinha apenas 16 anos de idade, e a longa convivência acabou fazendo Winner perder o medo do casamento. Eles noivaram em 2007 e se casaram em setembro de 2011.
No começo de 2012, os médicos lhe disseram que ele tinha apenas 18 meses de vida. Mas sua luta contra o câncer durou pouco mais da metade deste tempo. Winner chegou a considerar o suicídio assistido, numa clínica suiça, mas foi vencido pelo longo processo burocrático. Ele acabou falecendo em sua residência londrina, no bairro de Kensington, na segunda (21/1).

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